| Li
recentemente uma notícia que chamou minha atenção:
uma série com gays negros está prestes a estrear numa
emissora de tv a cabo americana. Puxa vida! Uma série que irá
retratar o dia-a-dia de homossexuais negros! É uma conquista
e tanto! Fiquei a pensar: será que algum dia isso seria possível
no Brasil?
Difícil. O Brasil caminha a passos de tartaruga nesta questão.
O máximo que nossa teledramaturgia aceita é colocar
eventualmente um casal de lésbicas numa novela global, fora
do eixo central da trama. Rara exceção foi o casal
de jovens, lindas e loiras da novela Mulheres Apaixonadas, que mesmo
com o melancólico (falso) beijo final, conseguiu se destacar
dentre outras questões femininas que o autor Manoel Carlos
escreveu. Fora este exemplo, o que temos é ainda muito restrito
ao um padrão pré-estabelecido. Ou seja, as garotas
podem ser lésbicas, claro, mas são femininas, bonitas,
bem-vestidas, ou seja, naquele padrão mercadológico
aceito pelo mercado de consumo (lembra daquele termo dos anos 90
lesbian chics?).
Pois bem, fora à telenovela, os únicos espaços
em que aparecemos são os programas populares, tipo João
Kleber, Ratinho ou Luciana Gimenez, que usam nossos semelhantes
como marginais ou burlescos elementos que se envolvem em situações
questionáveis, unicamente pelo desejo de estar em evidência.
Também aparecemos nos programas humorísticos, tipo
A Turma do Didi, Zorra Total ou Casseta & Planeta, que adoram
nos colocam no eterno papel estereotipado de palhaços fúteis,
frágeis ou maldosos. E isso é tão antigo que
grande parte da sociedade brasileira acredita que aqueles são
os verdadeiros homossexuais!
O bom senso pediria para eu desligar a televisão ou simplesmente
mudar para os canais a cabo, certo? Errado. Eu não desligo,
pois eu adoro assistir televisão! Portanto, acabo optando
pela segunda sugestão, que é mudar para os canais
a cabo. Neste espaço, acabo encontrando um bom número
de bons exemplos de programas produzidos tanto pelos EUA, como pela
França ou recentemente pela Alemanha. Mas tevê a cabo
no Brasil é uma coisa tão elitista, que ficar citando
séries exibidas lá para uma grande maioria que não
tem acesso é de deselegante e pouco educado. Além
disso, é um equivoco citar séries de outros países
como exemplo a ser seguido.
Depois, as realidades dos homossexuais americanos, franceses e
alemães são completamente diferentes da nossa, principalmente.
Estamos falando de países do primeiro mundo, oras bolas!
Segundo e principal ponto, nós estamos no Brasil! País
da melhor telenovela do mundo, fórmula que, por mais cansada
que seja, funciona e diariamente coloca milhões de pessoas
em frente aos aparelhos de televisão, que dependendo da trama,
vira o assunto nacional, comentada da padaria aos meios acadêmicos
(estou sendo simpático com a Academia - reduto do mais desagradável
conservadorismo na discussão sobre assuntos considerados
menores, no caso, a televisão!).
Sim. Eu sei que os detratores da televisão adoram dizer
que a novela só está ocupando o espaço que
os comerciais não podem ocupar, ou seja, novela só
serve para vender produto. Ok! Isso não está inteiramente
errado, mas é descabido! Este argumento é antigo,
preconceituoso e equivocado. Como desprezar uma mídia tão
forte, que influencia a vida de milhões de pessoas, que compram
aquela verdade como a sua verdade?
A questão homossexual não pode continuar a ser aperitivo
erótico para marmanjos que se deliciam com garotas lindas
e loiras que vivem a trocar selinhos, no mais puro deleite que elas
só estão ali para excita-los, ou seja, são
"lésbicas" enquanto o verdadeiro macho não
chega para resolver o "problema" delas (sic).
Já passou da hora de termos outros exemplos de GLTTB (Gays,
Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais) presentes
nas tramas principais das novelas, séries e mini-séries.
E que estes personagens tenham uma vida comum, ou seja, que trabalhem,
estudem, vão ao cinema, se joguem nas pistas das boates,
namorem ou se separem, exatamente como qualquer outra pessoa.
Eu me lembro com louvor de alguns poucos momentos que estivemos
presentes na mídia brasileira, em recentes comercias, como
da FIAT, da Motorola ou da Listel, apenas para citar alguns, onde
éramos retratados exatamente como somos: pessoas normais.
Se nossa orientação ou identidade sexual é
outra, isso não nos torna pessoas diferentes de qualquer
outro mortal. Pagamos um monte de impostos! Pagamos contas de água,
luz ou telefone, exatamente igual a todos. E ainda para este fim,
enfrentamos longas filas. E eu ainda não ouvi qualquer gerente
do banco falar que terei um desconto neste mês, porque eu
sou gay! Ou seja, se eu não tenho privilégio ou diferenciação
alguma, eu sou um cidadão exatamente como todos os heterossexuais!
Quero ver estórias sobre o romance entre dois gays, duas
lésbicas masculinas, uma travesti e um T-Lover e todos os
outros que conhecemos do nosso dia-a-da sendo retratados na televisão
brasileira, no horário nobre, igual aos dramas das senhoras
dos destinos ou das mulheres apaixonadas da vida.
Não quero ser lembrado na mídia unicamente para como
palhaço, marginal, sociopata ou qualquer outro personagem
que os programas populares insistem em nos retratar. Chega de programas
preconceituosos! E chega de aceitarmos estes programas!
Quando um programa de televisão retrata homossexuais nas
típicas situações de preconceito, estes programas
têm que ser boicotados. Sabe como? Assista algum dia estes
programas na integra. Anote cada produto veiculado nos intervalos
comercias. Resista aquela oferta imperdível, não indo
àquela loja. Espalhe para seus amigos que aquela loja de
móveis patrocina um programa que ofende e estimula a perpetuação
do preconceito contra homossexuais. Aproveite a ocasião e
mande e-mails, cartas ou faça telefonemas para a mesma loja
explicando que você, seus amigos e todos os conhecidos não
irão comprar nada que seja ligada ao nome a loja, porque
este estabelecimento compactua com o preconceito contra GLTTB.
Pode parecer ingênuo. Mas você vai ver o que acontece
quando um grande número de pessoas deixar de comprar numa
loja, depois de um grande boicote! Saiba que, neste caso, nada mexe
mais num programa de televisão do que um patrocinador que
não consegue vender produtos!
É uma tática terrorista? Sim, é! Mas os programas
de televisão que nos ofendem ou nos humilham usam da mesma
tática há anos e como a gente continua a ficar quieto,
eles estão pouco interessados se gostamos ou não do
retrato que fazem de nossa comunidade para o grande público.
Esta tática foi adotada pela comunidade de gays e lésbicas
americanas faz tempo. E, mesmo entendendo as enormes diferenças
sociais entre os dois países, garanto a vocês, que
neste caso, as emissoras de tevê são bem semelhantes
quando perdem um anunciante: tirar o programa do ar!
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