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Stonewall no novo milênio
Um dos assuntos mais emocionantes da semana passada foi a informação que veio de São Paulo sobre um grupo de gays que invadiram um ônibus para se vingar das agressões verbais (xingamentos) e físicas (jogaram coca-cola) provocada por alguns rapazes homofóbicos.

O caso repercutiu em várias listas de discussões GLTTBs do Brasil, com as mais variadas reações. A mais comum foi felicitar o corajoso grupo, que na mais ousada inversão de valores que este país se lembra, resolve usar a mesma arma que anos e anos de preconceito nos tornaram vítimas nas mãos de pessoas, que não aceitam a diversidade sexual e nos casos mais extremos, nos matam. E estas mortes revelam requintes de crueldade que assusta a qualquer um.
Um detalhe muito curioso sobre o ocorrido foi o local que a agressão aconteceu, na rua Vieira de Carvalho, tradicional ponto de encontro dos gays paulistas, exatamente ao lado da Praça da República. Este mesmo local foi palco do assassinato do adestrador de cães Edson Neris, no dia 05 de Fevereiro de 2000, por um grupo de skinheads.
O caso virou referência nacional, deixando uma cicatriz profunda numa realidade muito mais comum do que a grande maioria da população brasileira conhece (ou finge desconhecer), incluindo neste limbo uma grande parte dos homossexuais brasileiros, que preferem não falar do assunto.

Aí, cinco anos depois um grupo resolve inverter a máxima do vitimismo e parte para uma vingança no melhor estilo Stallone de ser, ou seja, justiça feita pelas próprias mãos.
Os pacifistas logo subiram no palanque para dizer que violência gera violência e que existem outras formas de resolver a questão, como chamar a polícia, por exemplo (e eu me pergunto como o grupo que resolveu revidar a agressão iria conseguir impedir que o ônibus saísse do lugar na espera de algum policial, que simplesmente poderia nem dar importância ao fato, como é comum na maior parte dos casos como este). Ou mesmo, por que somente nós podemos ser vitimas? É confortável ficar neste papel em todos os momentos?
Do outro lado um enorme contingente de gays, lésbicas e travestis, que cansados de anos e anos de violência que atinge sem a menor piedade seus semelhantes felicitou o grupo. Uma das justificativas foi o sentimento de "catarse". Uma vida inteira de negação, baixa auto-estima e, fundamentalmente, preconceito foi exorcizado, pois naquele momento uma sensação de justiça se fez presente.

O acontecimento remete ao histórico momento em Stonewall, quando um grupo de pessoas cansadas de serem agredidas constantemente por policiais resolveu reagir, transformando o bar num palco de guerra. E o resultado todo mundo sabe (ou deveria saber), que é o início de um novo capitulo na história do Movimento Homossexual Moderno, celebrado todos os anos no dia 28 de Junho, imortalizado como o Dia do Orgulho Gay (apesar de incorreto, pois naquele mesmo dia um grande número de travestis esteve presente e travestis não são gays!).
O ocorrido na rua Vieira de Carvalho poderia ser também o início de um novo momento? Uma temporada de reações mais agressivas e diretas, que munidos do cansaço de anos e anos de agressões, que se apresentam das mais variadas formas, das mais sutis (olhares esbugalhados, risinhos, deboches, imitação de trejeitos e coisas do tipo), às diretas (xingamentos, agressões, espancamento, tiros, pedradas, facadas, etc), resolveram tomar as dores do mundo e vão ao ataque?

Difícil dizer com tamanha certeza, principalmente neste momento, no calor das emoções. Mas é sintomático como a reação aconteceu, principalmente quando se ouve de algumas pessoas uma forte critica ao ocorrido, justificando que usando as mesmas armas estamos nos igualando aos nossos inimigos. Pode ser. Contudo, não posso criticar quem reage ao preconceito desta forma, assim como ninguém pode. Estar na pele do objeto de ódio, rancor e ojeriza já me basta enquanto homossexual vivendo num mundo dominado pelo machismo e pelo sexismo, que nos mata sem piedade.
Não pensar nisso quando vemos situações extremadas como esta é de uma ingenuidade que chega a ser perigosa.
Quantas pessoas não gostariam de estar no lugar daqueles rapazes gays que entraram no ônibus e bateram nos homofóbicos, exatamente como foi feito?

Vamos deixar de ser hipócritas e compreender que reações como esta são importantes mensagens para um grupo cada vez mais crescentes de opositores do nosso movimento! Pessoas que querem a morte a entender que 1 milhão e 500 mil pessoas na Avenida Paulista em 2004 não são vitimas esperando o algoz que nos espreita a cada esquina das grandes cidades esperando pelo momento certo para nos agredir.
Já passou da hora de entendermos que estamos sim numa guerrilha urbana. Os grupos de militância estão aí para relatar todos os casos de discriminação e preconceito por orientação sexual ou identidade de gênero que chegam constantemente ao seu conhecimento.

Entenda de uma vez por todas: quanto mais projetos de leis surgem e são aprovadas voltadas a garantir nossos direitos humanos básicos enquanto cidadãos, assim como um número maior de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais saem às ruas assumindo sua sexualidade sem medos e exigindo seus direitos, saiba que um número ainda maior de opositores também aparece.

Veja as declarações do novo presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcante para entender com que tipo de gente que temos que lutar no nosso dia-a-dia.
O acontecimento da rua Vieira de Carvalho na primeira semana de Março de 2005 merece ser avaliado com mais cuidado e mais atenção, pois aquilo tem vários significados culturais importantes para nossa comunidade.

Marcelo Oliveira:
jornalista, produtor de filmes e fotos publicitárias, coordenador de administração e finanças do IDENTIDADE - Grupo de Ação Pela Cidadania Homossexual, escreve quinzenalmente a coluna FRONT, do site Espaço GLS, de Campinas.