| A
luta pelo fim da homofobia, do sexismo, do machismo e do preconceito
é o lema do IDENTIDADE - - Grupo de Ação Pela
Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais,
uma ONG (Organização Não Governamental), sem
fins lucrativos, sem filiação partidária ou religiosa,
fundada em 19 de maio de 1998, na cidade de Campinas, SP. Não
temos um presidente. Somos um colegiado com nove coordenadores, responsáveis
pelas seguintes áreas: Administração e Finanças,
Comunicação e Eventos, Direitos Humanos, Mulheres, Projetos,
Saúde, Travestis e Transexuais e as novas Articulação
com Movimentos Sociais e Negros (as).
Tivemos um 2004 muito movimentado. Pela primeira vez em nossa história
desenvolvemos alguns projetos simultâneos, além de
nossa atuação no atendimento dos LGTTB.
Um dos projetos desenvolvidos pelo grupo chama-se "Visibilidade
Positiva" - parceria com o Programa Estadual DST/AIDS, do estado
de São Paulo. Ele poderia ser classificado como um projeto
de Fortalecimento e Sustentabilidade do grupo, oferecendo mecanismos
de auto gerenciamento.
Boa parte das ONG que trabalham pelos Direitos Humanos e Prevenção
as DST/AIDS de homossexuais do país sofrem dos mesmos problemas:
falta de uma sede própria, poucos voluntários, ausência
de parcerias e, fundamentalmente, falta de recursos próprios.
Por esta forma, valorizamos a importância desta parceira,
que entre outras ações, nos possibilitou o aluguel
de uma sede. Com seis anos de história, o IDENTIDADE nunca
teve um espaço próprio para realizar suas ações
de forma mais efetiva. O que tivemos até então eram
espaços emprestados e com uso limitado, possibilitando unicamente
nossas reuniões dominicais.
Hoje temos um espaço de organização de nossas
atividades (atendimento dos casos de discriminação
por orientação sexual ou identidade de gênero;
reuniões temáticas - com os assuntos mais variados,
procurando trabalhar com a elevação da auto-estima;
trabalho de prevenção as DST/HIV/AIDS; participação
em Fóruns, Seminários, Encontros, além da preparação
aos convites para aulas e/ou palestras em Universidades, Escolas
Publicas ou Particulares, priorizando os assuntos referentes a homossexualidade
ou a bissexualidade), socialização dos afiliados (reuniões,
festas, exibição de filmes e vídeos) ou simplesmente
um lugar de convivência com nossos semelhantes - a idéia
de ter um espaço que você possa ir no momento que quiser
e poder ser você, sem a máscara da opressão
familiar, profissional ou social já é um grande avanço.
Sabemos que para manter esta sede temos que redobrar nossos esforços,
até, por que, o Projeto de Sustentabilidade é de apenas
12 meses e paga somente o aluguel. Contas de água, luz, telefone,
internet e outros são pagos pelas contribuições
voluntárias de seus associados.
Por isso, o projeto "Visibilidade Positiva" acabou se
tornando o grande responsável por um novo e positivo momento
na história organizacional do grupo. Se no início
do 2004, o grupo tinha um número abaixo de 20 associados,
fechamos 2004 com 43. Ou seja, dobramos. Sabe o que isso significa?
Que 23 novas pessoas se juntaram na luta pelos direitos dos LGTTB
no cenário campineiro. E estas pessoas estão se articulando
nos mais diferentes espaços, além de representar o
IDENTIDADE nas mais diversas atividades.
Se Campinas já era conhecida como uma grande força
política pela luta pela cidadania dos Homossexuais, o IDENTIDADE
se coloca como um dos grandes responsáveis.
O trabalho desenvolvido por seus ativistas se baseia na ética,
na transparência e na responsabilidade de suas ações.
É de bom tom também destacar que o cenário
campineiro conta com outros grupos, como o "MO.LE.CA (Movimento
Lésbico de Campinas)", assim como o "Aos Brados
- Vivência Digna da Homossexualidade (que prioriza suas ações
nos bairros mais periféricos da cidade)", o "Diversidade
Sexual (da Unicamp)" e o recém-criado "E-Jovem
- Grupo de Gays, Lésbicas e Aliados" (que trabalha fundamentalmente
a difícil temática da homossexualidade entre os jovens).
Pela pluralidade das ações dos grupos locais tornou-se
necessário à criação de um Fórum
GLTTB, que entre outras atividades, é o responsável
anualmente pela organização das atividades do Mês
da Diversidade Sexual, culminando com a Parada do Orgulho, no mês
de Junho, pelo mês da Visibilidade Lésbica, no mês
de Agosto, assim como pelos projetos do Orçamento Participativo
do Segmento Homossexual.
Os grupos citados são compostos por voluntários.
Gente que se desdobra em profissões variadas para trabalhar
por um ideal. Ninguém precisa ser contratado ou concursado
por qualquer órgão público para militar pelos
Direitos Humanos dos GLTTBs. É uma ação livre
e espontânea.
Existe uma certa confusão entre alguns setores sobre a existência
dos grupos organizados da cidade. Assim como existe uma grande confusão
entre Movimento Social e Partido Político.
O IDENTIDADE não tem vínculos partidários,
assim como eu acredito que os outros grupos também não.
Se alguns militantes são afiliados a certos partidos, garanto
que isso é unicamente uma questão pessoal. Procuramos
separar uma coisa da outra. Quando fazemos panfletagem de nossos
materiais gráficos, pedimos aos associados que não
utilizem qualquer símbolo de qualquer partido político.
É uma forma de desmistificar a confusão que alguns
setores fazem questão de manter, unicamente por interesses
próprios. Acredito que a mesma posição seja
tomada pelos outros grupos.
Se o Orçamento Participativo foi um projeto do Governo do
PT, que, em principio, contemplava setores até então
esquecidos ou marginalizados pela sociedade patriarcal, machista
e conservadora brasileira, o Movimento Homossexual Campineiro não
começou a partir dele. De forma alguma.
O espaço dentro do OP foi conquistado pelos grupos da cidade
(na época só existia o IDENTIDADE e o MO.LE.CA) na
base do grito. Muito grito. No início, apesar do discurso
da inclusão, os homossexuais nem foram cogitados. Pela força
dos ativistas de plantão, este quadro mudou. Desta forma,
escrevemos projetos voltados ao nosso segmento. Alguns foram implementados,
outros nem saíram do papel. Mas em todos os momentos, vale
sempre lembrar, eram os militantes que estavam lá, tentando
participar de todas as etapas.
Mesmo com uma difícil relação em algumas Secretarias
do Governo Municipal, que não estavam acostumadas a lidar
com a temática da homossexualidade, tivemos um saldo mais
positivo do que negativo, apesar de grandes desgastes nesta relação,
principalmente nas Secretarias de Segurança, que em nenhum
momento abriu suas portas para conversar sobre nossos projetos.
Apesar dos pesares (que não foram poucos), foram três
anos importantes. Aprendemos a lidar com a máquina publica,
o que não foi nenhum pouco fácil. Irritamos-nos profundamente
com a burocracia, que existe e que sempre vai existir em qualquer
órgão público. E nos decepcionamos quando faltou
maior transparência e abertura de dialogo em outros espaços,
que acreditávamos já nos pertencer.
Acredito que esta relação "Movimento Social"
e "Órgãos Públicos" sempre vai ser
delicada. Afinal, a existência cada vez maior de ONGs no país
se deve principalmente pela falta de competência, sensibilidade
e interesse do Governo com os assuntos específicos, que ele
não acredita ser prioritários em sua gestão.
Cabe a nós, movimento, executarmos o papel que caberia ao
Estado.
O resultado desta parceria (mesmo entendendo que esta palavra foi
muito mal compreendida em vários momentos) é um movimento
mais forte, mais maduro e mais "pé no chão".
Se em algum momento tínhamos algum vislumbre que nossas
ações - numa suposta aliança com o setor público
do município - pudesse mudar o quadro da homofobia que atinge
todas as camadas sociais, hoje, temos certeza que este trabalho
é depende principalmente de nossas ações.
Governantes, Secretários, Diretores e Coordenadores de órgãos
públicos vêm e vão. Movimento social continua.
Não podemos ser refém de qualquer organismo público.
Nunca podemos perder nossa autonomia.
Se em alguns raros momentos juntamos forças, é fundamental
saber as regras de cada um no jogo. E de preferência que estas
regras sejam claras, objetivas, que venham por escrito, em papel
timbrado, com assinatura de mais do que uma testemunha, filmada
ou gravada. E mesmo assim, corre-se o risco da decepção
- que é muito comum de acontecer.
O grande aprendizado do Movimento Homossexual Campineiro é
a aceitação de parceiros na realização
de nossas ações. Parceiros que possam ser do governo,
sindicatos ou outros movimentos sociais. E nesta parceria é
fundamental que haja o respeito a nossa autonomia, nossas idiossincrasias
e principalmente, pelo nosso direito de não concordam quando
o trabalho realizado não sair como foi o prometido - Já
ouviram a seguinte frase: Por que vocês reclamam de tudo?
Nós fizemos! Se o que foi feito não saiu como vocês
planejaram, isso é um detalhe. Que outro governo faria algo
igual?
Saibam que eu já ouvi isso! E não foram poucas vezes!
Ai, eu pergunto, como articular uma parceira, onde um dos envolvidos
tem este tipo de pensamento?
|