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A ponta do iceberg : de Durban a Genebra
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O recuo do Governo Brasileiro
na apresentação da proposta de Resolução
em favor dos direitos da livre orientação sexual junto
à Comissão de Direitos Humanos da Organização
das Nações Unidas tem provocado inúmeras manifestações
de militantes do movimento brasileiro de lésbicas, gays, travestis,
transexuais e bissexuais (LGTTB), tanto de repúdio como de
solidariedade, face à avaliação de iminente derrota
da proposição. Como tive a impressão de que em
algumas avaliações faltou um pouco de memória
de nosso próprio movimento, penso ser necessária uma
reflexão nem tanto sobre a posição do Governo
e da diplomacia brasileiros, mas nossas próprias limitações
enquanto militantes da luta contra a homofobia.
Antes que me acusem de estar evitando me pronunciar sobre um Governo
que é dirigido pelo partido ao qual tenho orgulho de militar
há mais de 23 anos - o Partido dos Trabalhadores, quero externar
minha avaliação desse episódio sobre a perspectiva
da atuação da missão brasileira. Inicialmente,
me causa certa estranheza que um Governo que não teve até
os dias de hoje a mínima capacidade de implementar quaisquer
políticas em favor de lésbicas, gays, travestis, transexuais
e bissexuais que vivem neste País, tenha legitimidade para
apresentar tal proposta em âmbito internacional. Neste quadro,
fica difícil não recordar a impagável poesia
de do grande Gregório de Mattos, descrevendo em fins do Século
XVII a Cidade da Bahia : A cada canto um grande
conselheiro,/ Que nos quer governar cabana e vinha;/ Não sabem
governar sua cozinha / E podem governar o mundo inteiro.
Se o Governo Lula pretende mesmo apoiar a luta de lésbicas,
gays, travestis, transexuais e bissexuais por seus direitos, que comece
fazendo a lição de casa, ou seja, aproveite
a ampla base de apoio que teve no Congresso para apoiar reformas que
exigiam 3/5 de votos favoráveis, e oriente sua bancada para
aprovar projetos de leis como os que instituem a Parceria Civil Registrada
Entre Pessoas do Mesmo Sexo, tipificam como crime a discriminação
motivada por orientação sexual, e garantem às
transexuais seu direito à cirurgia transgenital e retificação
do registro civil. Isso sim, serão ações concretas
e efetivas, e não meras proclamações de boas
intenções (das quais o inferno já está
bem lotado ...).
Aliás, esperamos não ser esta a perspectiva do anunciado
Plano Nacional de Combate à Discriminação a ser
lançado nos próximos dias, pois achamos curioso que
já estando em vigor um Programa Nacional de Direitos Humanos
II, no qual constam pelo menos algumas dezenas de propostas em favor
da população LGTTB, o atual Governo Federal, a exemplo
de seu antecessor, não tenha tomado sequer uma única
medida para implementar uma das ações ali propostas.
Mas se o Governo Federal e sua diplomacia tem responsabilidades no
verdadeiro festival de equívocos que assistimos
nesses últimos dias, cabe igualmente ao movimento de lésbicas,
gays, travestis, transexuais e bissexuais do Brasil fazer uma reflexão
sobre seu papel neste roteiro de dramalhão mexicano.
Recebi diversas mensagens via e-mail questionando a legitimidade de
Roberto de Jesus, do Instituto Edson Néris, para ir a Genebra
participar deste processo de encaminhamento da proposta de Resolução,
com afirmações como ele não está
representando a ABGLT (Associação Brasileira de Gays,
Lésbicas e Transgêneros), ou ele não
está representando o Setorial LGTTB do PT, dentre outras.
Ora, alguns desses questionamentos partiram de militantes ligados
a grupos que são filiados à ABGLT, e não dá
para deixar de pensar no que aconteceu em 2001, na definição
da delegação que iria representar nosso País
na III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Xenofobia e Formas
Correlatas de Intolerância, realizada em Durban, na África
do Sul. O militante Cláudio Nascimento, do Grupo Arco-Íris
e da ABGLT, foi participar daquele importantíssimo evento,
sem qualquer discussão entre as organizações
LGTTB brasileiras, inclusive entre as que participaram das atividades
preparatórias realizadas nos Estados e Municípios, e
isso foi cobrado por muitas e muitos que militam contra a homofobia.
Não me recordo que naquela época esses mesmos ativistas
que hoje reclamam da ida de Beto de Jesus a Genebra tenham feito a
mesma crítica a Cláudio Nascimento. Dois pesos e duas
medidas ?
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Mas não precisamos
ir ao exterior para observar tais incoerências. Há pouco
mais de dois anos, no período que estava em torno da Conferência
de Durban, o Governo de Fernando Henrique Cardoso criou através
de um Decreto, regulamentando matéria prevista em Medida Provisória
(que beleza de processo !!!...), o Conselho Nacional de Combate à
Discriminação. Na época em que este Conselho
foi criado, fizemos essa crítica, em relação
ao método de criação e à sua composição
e forma de organização, mas fomos voz completamente
isolada neste aspecto. E o Governo FHC, sem consultar a militância
LGTTB do País, mesmo tendo sido recém realizado o X
Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, em Maceió
(de 23 a 25 de outubro de 2001), nomeou como representante de nosso
movimento o respeitado ativista Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia e
da ABGLT. Muito menos do que as credenciais do nome indicado, o que
está em questão é a sua legitimidade, algo que
nos pareceu totalmente equivocado, do ponto de vista da democracia
e da transparência. E mais uma vez resgato esta memória,
pois também não me recordo de críticas destes
militantes ligados à ABGLT sobre a nomeação de
Luiz Mott naquele processo. Mais uma vez a pergunta que não
quer calar : são dois pesos e duas medidas ?
Penso que esses problemas, por mais relevantes que possam ser, constituem
apenas a ponta de um enorme iceberg, que a extraordinária fragilidade,
desorganização e fragmentação do movimento
de lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais brasileiras.
Infelizmente, esta é uma avaliação que não
pudemos fazer nem no X e muito menos no XI EBGLT, realizados respectivamente
em Maceió (AL) e Manaus (AM), pois coincidentemente,
na programação de ambos os eventos, não havia
um espaço para esta reflexão. E não terá
sido por mero acaso que os resultados dos dois Encontros, para a articulação
das organizações LGTTBs do Brasil na luta por nossos
direitos, tenham sido absolutamente insignificantes. Basta que nos
perguntemos, sem medo de fazermos a autocrítica : que estratégias
foram traçadas para o conjunto do movimento, no enfrentamento
à homofobia e na luta para a aprovação de nossas
principais reivindicações ? Algum ou alguma pessoa que
tenha participado do X ou do XI EBGLT poderia apontar isso para nós
? Podemos esperar sentados ...
E não é a toa que enquanto nossos irmãos argentinos
conquistam uma legislação de união civil na Região
Autônoma de Buenos Aires, aqui nestas terras tropicais continuamos
amargando contínuas derrotas nas tentativas de colocação
dos projetos de nosso interesse no Congresso Nacional. E não
se jogue a responsabilidade por este fato nos parlamentares progressistas
: desde o ano passado, temos uma Frente Parlamentar Mista Pela Livre
Expressão Sexual que reúne quase uma centena de congressistas,
entre deputados e senadores, maior inclusive que nossa adversária
Frente Parlamentar Evangélica. Mas alguém em sã
consciência pode acreditar que por mais que tenhamos no Congresso
esse considerável apoio a nossas proposições,
conquistaremos a aprovação de alguma delas sem uma articulação
e mobilização de nossa militância LGTTB sobre
a Câmara de Deputados e o Senado Federal ? Quem pensar assim,
que peça ajuda também ao Papai Noel ...
Lamentavelmente, o movimento brasileiro de lésbicas, gays,
travestis, transexuais e bissexuais, apesar de realizar uma série
de encontros e eventos, não tem conseguido traçar uma
estratégia política de enfrentamento aos conservadores
e homofóbicos, o que passa por uma avaliação
de conjuntura, um balanço de nossa caminhada nestes anos desde
que o primeiro encontro de homossexuais aconteceu em 1980, e uma leitura
das diversas possibilidades de alternativas para nossa luta. Esse
deveria ser um dos papéis dos EBGLTs mas parece que a maioria
de seus organizadores e a Direção da ABGLT tem feito
o possível para evitar que esse debate seja aprofundado. O
resultado é esse que aí está, com inúmeras
lideranças expressivas do movimento LGTTB brasileiro atirando
para todos os lados no rescaldo do fiasco de Genebra, como se
esses problemas tivessem começado agora, o que com certeza
não é verdade. E não estaremos nos preparando
para mais uma cena desse tipo, quando do lançamento do anunciado
Plano Nacional de Combate à Discriminação Por
Orientação Sexual ? Será que a Secretaria Especial
de Direitos Humanos, com seu histórico pouco recomendável
nesta e nas gestões anteriores, ou mesmo este Conselho Nacional
de Combate à Discriminação, com uma composição
e uma estrutura desse tipo, têm legitimidade e credibilidade
para definir um plano desse tipo ?
Espero que o próximo Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas
e Transgêneros, marcado para 2005 em Brasília, seja de
fato um espaço para essas reflexões e para um balanço
político da atuação do movimento de lésbicas,
gays, travestis, transexuais e bissexuais do Brasil, com um debate
qualificado nesse sentido, o que poderá quem sabe nos preparar
melhor para os gigantescos desafios que se colocam a nossa frente,
na construção de um País mais justo, e que possa
um dia superar essa trágica herança de racismo, sexismo
e homofobia. |
Paulo
Tavares Mariante: advogado, Coordenador de Direitos Humanos
do Identidade - Grupo de Ação Pela Cidadania Homossexual,
de Campinas, SP, e da Coordenação do Setorial Estadual
de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais do Partido
dos Trabalhadores de SP.
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