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convite chegou-me de repente. Ser padrinho da Sophia não estava
em meus planos. A mãe, uma amiga há mais de dez anos,
confiou-me parte da educação da garotinha, digo parte
porque independentemente da nossa vontade, a escola, a igreja, os
amigos, a família e a mídia, se responsabilizarão
pelo resto.
O mundo em que a Sophia está começando a se enfrentar
(nós nos enfrentamos, antes mesmo de enfrentarmos o mundo)
é bastante complexo; cheio de tensões e muitas contradições.
Constituir-se mulher tem sido desafiador antes mesmo do séc.
XVI - quando as mulheres detentoras de saberes não-oficiais
eram tidas como bruxas e enforcadas ou queimadas na fogueira - até
os nossos dias - em que são cobradas a serem tão "gostosas"
como as marcas de cerveja. Mas, nós homens também
somos vítimas de preconceitos e opressões, afinal
ainda não podemos ser sensível o suficiente para atingirmos
a felicidade de nos comover diante de algumas belezas do mundo:
uma rosa, uma bela pintura ou uma boa música instrumental.
A opressão masculina sobre o sexo feminino que não
é nada frágil, mesmo com a libertadora criação
das pírulas anticoncepcionais e da valorização
do trabalho feminino (é bom lembrar que os salários
das mulheres ainda são inferiores aos dos homens que exercem
a mesma função), trouxe-nos situações
como a de depararmos com posturas machistas em muitas mulheres e
por sua vez, de encontrarmos vários homens em crise diante
desse padrão autoritário e nada sensível que
são submetidos e cobrados a desempenar.
Atualmente as questões de gênero têm sido discutidas
em muitos grupos sociais, desde movimentos sindicais até
grupos religiosos. Pensar uma nova forma de ser e estar no mundo
como homens ou mulheres tem sido um desafio a todos nós.
Não bastam apenas igualdades de direitos, é preciso
que cada indivíduo na sociedade seja reconhecido em suas
especificidades de gênero. As necessidades dos homens não
são as mesmas das mulheres, porque socialmente as funções
desempenhadas por cada um deles são específicas e
infelizmente ainda valorizadas de forma desigual.
A dinamicidade da sociedade tem exigido uma nova reflexão
a respeito da educação dos meninos e das meninas.
Como se cobra um homem sensível e amoroso se eles são
educados a serem agressivos e competitivos? Como esperar que as
mulheres sejam empreendedoras e livres se ainda crescem dentro de
famílias fundamentadas em valores machistas e patriarcais?
Os nossos sentimentos e a nossa sensibilidade precisam estar "à
flor da pele" para que as crianças sejam educadas a
construírem um mundo mais acolhedor a todas as formas de
ser homem e de ser mulher, porque a padronização dos
comportamentos femininos e masculinos tem sido uma agressão
a nossa maior qualidade: a diversidade de possibilidades de se tornar
humano.
Referir-se a ser homem e a ser mulher vai além do nosso
sexo biológico, afinal as transexuais (mulheres que nascem
biologicamente homens) têm nos ensinado que reconhecer-se
mulher independe da fisiologia de nossos corpos. Então há
as cirurgias de trangenitalização - compor um órgão
sexual feminino onde há um órgão sexual masculino
ou vice e versa. As travestis também contribuem para as nossas
re-significações de feminilidade e masculinidade,
afinal sua identidade ambígua nos revela a complexidade de
se sentir mulher sem abrir mão de seu sexo masculino. Podemos
ainda lembrar de todas as iniciativas dos movimentos feministas
e de grupos em defesa dos direitos homossexuais para construir uma
sociedade menos machista e mais acolhedora em relação
às formas de tornar-se homem ou torna-se mulher.
Espero que a Sophia nunca me cobre, da parcela que me cabe, a falta
de perspectiva diante do direito de livremente criar a sua forma
de reconhecer-se como mulher. Portanto, que possamos juntos, flexíveis
e com um outro olhar sobre as nossas relações nos
transformarmos em novos homens e novas mulheres, cidadãos
de "um novo mundo em gestação" (título
de um dos livros de Rose Marie Muraro - uma das pioneiras do movimento
feminista no Brasil), onde a humanidade possa ser celebrada com
menos preconceitos e mais solidariedade e afetividade.
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